Por que líderes experientes erram ao avaliar risco cibernético

Por que líderes experientes erram ao avaliar risco cibernético

ESCRITO POR:

Henrique de Souza

27/02/2026

Cibersegurança

Em uma reunião executiva aparentemente tranquila, o CISO apresenta um panorama atualizado das ameaças digitais. Os indicadores estão controlados, os investimentos foram realizados, as auditorias recentes não apontaram falhas críticas. A conversa avança com segurança, quase com conforto. Alguém afirma que a empresa está bem posicionada e a pauta segue adiante.

Dias depois, uma exploração simples em um sistema exposto revela que o risco não estava sob controle, apenas estava invisível. O que falhou não foi a tecnologia, mas a avaliação humana da exposição. A convicção de que a experiência acumulada era suficiente para antecipar o cenário levou a organização a confundir estabilidade com segurança.

Líderes experientes não erram por falta de inteligência. Erram porque a experiência cria atalhos mentais que reduzem a percepção da incerteza. Em cibersegurança, essa redução costuma ser perigosa.

Experiência não elimina incerteza

É natural que executivos confiem em seu repertório de decisões bem-sucedidas. Ao longo dos anos, aprenderam a avaliar riscos financeiros, operacionais e estratégicos com rapidez e precisão. O problema é que o risco cibernético não se comporta como os demais, pois é dinâmico, assimétrico e muitas vezes invisível até o momento do impacto.

Quando um líder diz que nunca sofreu um incidente relevante, tende a interpretar essa ausência como evidência de maturidade. No entanto, ausência de incidente não significa ausência de exposição. Significa apenas que a combinação específica de vulnerabilidade, oportunidade e motivação ainda não ocorreu.

A experiência ajuda a decidir sob pressão, mas pode criar a ilusão de previsibilidade. Em segurança digital, previsibilidade é rara. O que existe é gestão contínua de incerteza.

Conforto decisório aumenta exposição

Em muitas organizações, a discussão sobre segurança acontece em ciclos previsíveis. Aprova-se um orçamento anual, valida-se um plano, recebe-se um relatório periódico. Essa rotina cria sensação de controle e transforma a segurança em um item de checklist.

O erro humano comum não está na negligência, mas no conforto. Quando a conversa sobre risco se torna excessivamente estável, perde-se a tensão saudável que sustenta a vigilância. O board passa a enxergar a segurança como algo resolvido, e não como algo administrado permanentemente.

Conforto decisório é silencioso. Ele reduz questionamentos, encurta debates e desencoraja cenários hipotéticos desconfortáveis. Ao fazer isso, amplia a exposição sem que ninguém perceba.

Informação não elimina incerteza

Relatórios detalhados, dashboards sofisticados e indicadores técnicos são fundamentais. Contudo, informação não elimina incerteza. Ela apenas a descreve sob determinada perspectiva.

Líderes frequentemente acreditam que, ao receber dados suficientes, estarão protegidos contra surpresas. Essa crença é compreensível, pois dados reduzem ansiedade. Porém, o risco digital evolui em velocidade maior do que qualquer relatório mensal pode capturar.

A maturidade em cibersegurança começa quando o líder aceita que decidirá sempre com informações incompletas. A pergunta deixa de ser se temos todos os dados e passa a ser se estamos confortáveis em assumir conscientemente o nível de exposição atual.

A decisão sobre risco é sempre humana

Ferramentas monitoram, equipes analisam, processos estruturam. No entanto, a decisão final sobre quanto investir, qual risco aceitar e qual exposição tolerar é humana. E toda decisão humana carrega vieses, percepções e emoções.

Excesso de confiança é um dos vieses mais comuns em lideranças experientes. Ele nasce da trajetória de sucesso e da responsabilidade acumulada. Reconhecer esse viés não diminui autoridade. Pelo contrário, fortalece a governança ao trazer lucidez ao processo decisório.

Organizações mais maduras não são aquelas que acreditam estar seguras. São aquelas cujos líderes assumem explicitamente que a incerteza permanece, mesmo após investimentos consistentes.

Conclusão

Líderes experientes erram ao avaliar risco cibernético não por incompetência, mas por excesso de confiança em sua própria capacidade de previsão. A experiência, embora valiosa, pode reduzir a percepção da incerteza e gerar conforto decisório prematuro. Em cibersegurança, informação amplia clareza, mas não elimina exposição.

A tese central é simples e desconfortável: o risco digital não desaparece quando entendemos melhor o cenário, apenas se transforma. Cabe ao líder reconhecer que sua responsabilidade não é eliminar a incerteza, mas governá-la com maturidade. Quando essa consciência orienta as decisões, a organização deixa de reagir a surpresas e passa a administrar conscientemente sua exposição.

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